quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A divindade de ser louco ou loucura em querer ser deus

Tudo tem sido estrangeiro ao homem quando se depara com a delicada questão de ser louco em um mundo onde lucidez é o argumento justificador de atos covardes. Tem-se que o louco é a exceção ao comportamento dígno de um homem respeitável. Atira-se a primeira pedra e depois avalia-se o grau de lúcidez do apedrejado pelo simples fato de ter caído na prática de atos não aprovados pela massa. Outrossim, é louvável, aos olhos da massa justiceira, a conduta do arremessador de pedras, pois esse sim é o respeitável cidadão que vive sua lucidez e cumpre com as ordens que lhe são impostas sem sequer questionar se sua fonte está contaminada por interesses individuais. Como um rio onde as pessoas saciam a sede por normas de conduta, que por sua vez coíbem o louco que grita dentro de cada ser humano. Rio turvo que brota em um inalcançável grotão violado pela pastagem de animais domesticados.
O objetivo destas palavras é clarear a divindade presente na loucura de um ser humano, para isso temo como irrecusável a utilização do ramo do saber que mais defende a existência de deus, a filosofia. Eis que no princípio era o verbo, a palavra escrita ou falada, tradução da palavra grega logos, a razão. "E o verbo estava com  deus, e o verbo era deus." Passagem necessária para entender a proximidade da filosofia com o divino, sendo a razão o objeto central da busca pelo conhecimento filosófico, seria sensato afirmar que deus está no centro do pensamento filosófico como verbo, o logos, a luz, a razão, enfim, o conhecimento que foi oferecido pela serpente ao homem como forma de tornar-se divino.
Talvez seja precipitado afirmar que deus é algo tão simples de se alcançar, se assim o fosse não seria a fé nele combustível para buscas incançáveis, durante toda sua existência o homem vem buscando deus, e mais, buscando ser deus através da satisfação de sua sede na água do rio turvo do conhecimento. Na Grécia Antiga várias eram as correntes sobre a explicação de deus ou das divindades. Limito-me em afastar a questão do politeísmo, pelo simples argumento de que se partimos do pressuposto de que deus é perfeito, se é que deus "é" ou "está", não haveria tesão pela busca de vários seres perfeitos, pois um destes deveria ter sido criado por algo ou "estar em algo", e esse algo singular seria, talvez, deus. E se esse algo singular fosse criado por outro "algo", pela simples pirraça e limitação de não acreditar que deus existe no nada e é feito dele, podemos ignorar todo esse parágrafo e dizer que essa busca por deus é algo inalcançável para a razão humana, o que torna ainda mais forte a crença na superioridade de deus perante os seres limitados que ele criou.
Firmes em suas sustentações, há quem defendesse na Grécia Antiga e nos tempos atuais, o deus transcendental, que precede o universo, e portanto, o próprio homem, partindo deste pressuposto pode-se afirmar com veemência que deus criou tudo. Em um momento iluminado pela luz do conhecimento o homem cogitou a possibilidade de se chegar até deus com a eliminação das singularidades que fazem cada criatura ser criatura, pois através dessa exclusão de características inatas na essência da própria criatura, esta deixa de ser criatura e se não é criatura é criador, ora, seria possível chegar a divindade com a exclusão da essência de todas as coisas criadaspelo criador.
Pegue um pássaro e elimine dessa criatura as penas, não deixará de ser pássaro, seria apenas um pássaro depenado. Elimine agora as pernas, estaríamos diante de um pássaro depenado e alejado, a mesma coisa se eliminássemos uma das asas, ou o bico, ou o canto. Mas o mesmo não iria ocorrer caso excluíssemos do pássaro o vôo, pois o vôo é a essência do pássaro, o que o distigue de vários não pássaros, se voce remove a essência voce não tem mais a criatura, pois, pássaro sem vôo não alcança a finalidade divina pela qual foi criado, não se pode passarear sem ter a essência do pássaro. Da mesma forma não se pode ser pedra, sem ter a essência de uma pedra, pois o que a faz pedra é aquela singularidade, ou conjunto de singularidades, sem os quais não a criatura não seria mais ela mesma, mas sim algo completamente desconhecido, algo que ousamos acreditar ser deus.
Ora, quando se trata de bicho homem é necessário cautela ao excluir as singularidades, pois o homem é, entre todas as criaturas, aquele que possui uma singularidade estrangeira a todos os demais seres vivos, a razão. O que fez de Prometeu, na mitologia grega, o maior exemplo de complacência com a raça humana foi distribuir todos os dons aos animais e deixar para o homem a astúcia, a capacidade de empreender, inovar, inventar, criar. A criatura recebeu o dom maior que causaria inveja em qualquer outro ser, a capacidade de ser senhor de suas próprias escolhas, de avaliar o que deve ou não deve fazer, de escolher ser mau ou ser bom, dentro da defesa de seus interesses. Ao excluir a maior singularidade existente entre todas as criaturas, temos algo que não é sequer considerado homem por muitos. Temos o sem razão, sem conhecimento, sem capacidade de empreender, de gerenciar a própria finalidade pela qual foi criado, temos o louco.
E ao mergulhar na ausência de singularidade do louco, maravilhamo-nos com o ineditismo, com a imprevisibilidade de condutas, chegamos portanto à algo que não é humano, que não segue regras impostas pelo desejo da maioria ou por seus próprios gostos e prazeres, temos um ser que "é" ou "está", com ele mesmo e sem ele, do nada e com o nada, um produto concreto de suas imaginações turvas, desejos infantis e maduros de satisfazer o próximo e a si mesmo e entrar em conflito com esses dilemas que se trava no íntimo e efêmero repousar de sua cabeça no travesseiro.


Pedro Bragança